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Aquele da Sopa

Conto autoral publicado na News Not Letter



Cheguei em casa e a encontrei na cozinha. Estranho, era para ela estar repousando esse horário. Tudo bem. A abracei por trás, a senti ficar tensa, mas perguntei mesmo assim:

_ O que vamos comer? _ Sopa - ela diz.

Preferia pizza.

_ O cheiro está bom, deixa eu te ajudar - ela não diz nada e nem tão pouco relaxa.

Entrei no mood doméstico lavando as louças que ela ia sujando, perguntando como foi seu dia e recebendo respostas curtas e vazias. Era claro que ela estava chateada com algo, mas estou me permitindo não pressionar, acreditando que ela vai falar quando e se quiser falar.

Meu celular vibra na mesa da sala, sinalizando a chegada de mensagem e eu o ignoro. Ele toca mais algumas vezes e sigo ignorando. Algum grupo se animou com a conversa, pensei.

_ Não vai ver quem é? - ela pergunta.

_ Depois. _ Deveria ver logo ou colocar no silencioso, tá irritante esse barulho.

Desta vez eu a ignoro, junto com o celular.

_ Estou cansada, termina tudo aqui? - diz ela saindo da cozinha e indo para o quarto.

Respiro e termino a comida, ainda que meu cérebro fique se questionando: por que não pedimos pizza mesmo?

Percebo que tem sido constante as variações de humor de nós duas ultimamente, mas volta e meia respiramos e lembramos de exercitar o item paciência diante da nova rotina. Terminei de cozinhar, pus a mesa, até acendi umas velas para ver se a baixa iluminação dava um charme para a sopa e fui chamá-la para jantar. A encontrei parada sentada na cama, chorando silenciosamente, suas lágrimas caindo enquanto observava as imagens da televisão ligada. Meu coração rachou um pouco mais. Sentei ao seu lado, encostei minha cabeça na dela, segurei sua mão e fiquei em silêncio.

_ Meu cabelo começou a cair hoje - ela diz.

Caralho. Entendi.

Tentei não deixar meu suspiro transparecer muito e apertei sua mão.

_ Apesar de tudo o que sabemos, estudamos e ouvimos, nada me preparou para este momento. - Ela continua - Todo dia que acordo me sinto cada dia mais fraca, física e emocionalmente. Quebrada, literalmente, caçando forças pra viver. Cada dia que me olho no espelho me vejo um pouco menos, agora, definitivamente, não irei me reconhecer mais.

As lágrimas começam a sair dos meus olhos agora. William Bonner dá alguma notícia no jornal que ignoramos de tão absorvidas que ficamos naquele momento. Quando descobrimos o câncer, eu disse a ela que nunca tinha conhecido uma mulher tão guerreira e que eu tinha certeza que iríamos sobreviver àquilo. Repito isso todos os dias. Para mim e para ela. Engoli o choro e fui fazer minha parte.

_ Você deve ser a única mulher no mundo tão satisfeita com sua aparência a ponto de se incomodar com uma mudança de visual.

Ela arregalou os olhos e se virou para mim em choque. Observa meus olhos marejados, entende meu movimento e dança conforme a dança.

_ É que meu cabelo protege meu pescoço do frio - diz.

Dou uma risada curta.

_ Engraçado, me lembro de ter lhe conquistado com mil cheiros no seu cangote de tanto que seu pescoço ficava à vista.

Ela gargalha.

_ Táticas de sedução, nunca ouviu falar? - ela ri de canto.

_ Seu pescoço é sexy.

Ela abaixa os olhos envergonhada ou lembrando da situação, não sei.

_ Você é sexy. - eu reforço.

Suas lágrimas voltam a aparecer.

_ Enquanto você se olha no espelho e deixa de se reconhecer dia após dia, eu me pego te vendo por inteira todos os dias. A forma como você luta e se entrega não mudou, o que mudou foi o oponente de batalha. E esse vilão, querida, não é a doença, é a sua mente. Mas é claro que ele seria um vilão à altura, afinal olha a mulher com quem me casei! Linda, poderosa e inteligente para cacete.

Levanto o rosto dela com minha mão, a faço olhar para mim e digo:

_ Quando você não se reconhecer mais, olhe bem nos meus olhos e enxergue o quanto eu sou louca por você e lembre-se que eu sempre vou achar seu pescoço uma coisinha sexy.

Ela ri, enxugando as lágrimas.

_ Acha que já devo exibi-lo então? - ela pergunta.

_ Eu vou amar qualquer oportunidade para lhe cheirar aqui - respondo levando meu nariz no seu pescoço.

Ficamos assim por alguns minutos. O jornal termina, a novela das nove (mas que começa às dez) se inicia e, enquanto ela pensa no seu futuro corte de cabelo, eu sigo sentindo seu cheiro, aninhada no seu cangote, e esperando ela se acalmar.

_ Obrigada - ela diz. _ Por terminar a sopa? - me faço de desentendida. _ Foda-se a sopa, vamos pedir pizza! - ela responde.

Graças a deus!


Conto autoral publicado na News Not Letter em 29/11/21


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