Não teve carnaval, mas teve New York
- Ive Caceres
- 3 de abr. de 2022
- 2 min de leitura

Tenho alguns objetos embalados em caixas desde a minha mudança no final do ano passado, um deles é meu espelho de corpo inteiro. Achei que com tantos fixos na parede do novo apartamento e meio que sem saber onde instalar o meu, não fazia sentido desembala-lo por hora. Só que acontece que os espelhos desta casa são todos da cintura para cima, o que me impede de me ver por inteiro neles. “Tudo bem, né?”, pensei, “Tô trabalhando em formato de home office, sem grandes produções que necessitassem de um bom espelho.” (Pfff…)
Há duas semanas voltei de uma temporada de dois meses na casa dos meus pais em Salvador. Duas semanas que tive que reaprender a estar sozinha e conviver diariamente apenas comigo, durante uma pandemia. Nem tudo é crise, sério. Tem suas dores e suas alegrias. Mas, tem dias que o silêncio do apartamento é meio assustador e as paredes sufocam. No último domingo acordei precisando sair. Eu precisava sair. Bote a culpa num dia de carnaval sem carnaval, em um 2020 no meio de 2021, crise de ansiedade sinalizando que iria chegar… escolha. Porque eu escolhi me perguntar: “num final de semana normal, sem pandemia, sem ser dia de trio elétrico e ambulante vendendo 3 por 10, o que você faria?”. E foi assim que comprei um ingresso para uma exposição. Na minha cabeça eu estava escolhendo não só uma programação com menos riscos de aglomerações (na minha cabeça…), mas também uma pequena tentativa de não surtar.
Optei pela exposição de “John Lennon em Nova York por Bob Gruen” no MIS. Tomei coragem, banho, vesti uma roupa de sair (ô glória!) e passei 1h30 mergulhada naquela história com a trilha do ex- Beatles de fundo, enquanto respeitava o distanciamento físico e passeava entre os cômodos do museu. Na saída escolhi uma cafeteira perto, com ambiente arejado e mesas distantes uma da outra, onde, sozinha, desfrutei de um café na companhia do livro “Modern Love”, feito com crônicas retiradas da revista The New Yorker. Inconscientemente estava ainda naquela cidade, só que desta vez a trilha era o som da rua e seu cotidiano “normal”.
Por três horas sai do meu apartamento em São Paulo e fui para Nova York. Uma viagem que não deve se comparar a original, claro! Porém, mais tarde naquele mesmo dia, quando saí do banho e me observei num daqueles espelhos de casa que refletia apenas a metade do meu corpo, senti por um momento que estava me enxergando por inteira novamente. Valeu a pena a “viagem”.
Texto pessoal publicado no Medium em 16/02/21

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