Até onde vai o limite do jovem adulto?
- Ive Caceres
- 4 de abr. de 2022
- 3 min de leitura
Pense rápido: antes tarde do que nunca?

Tenho medo do escuro. Quando criança, dormir na casa dos meus avós maternos era um verdadeiro pesadelo, todas as luzes eram apagadas e eu, mesmo sem sono, tinha que encarar a escuridão, contar carneirinhos e sofrer de insônia. Talvez seja daí que venha o meu trauma e também a solução de sempre que dá, andar com uma luz que se conecta na tomada e que ilumina minimamente o ambiente quando passo a noite fora. Esse medo eu não encaro mais, menos um nervoso para passar na vida.
Ou assim pensei.
Há pouco mais de uma semana fiz uma viagem de carro com meu tio e meu cachorro. Foram três dias na estrada, de São Paulo a Salvador e combinamos de sair cedo, dirigir 12h por dia, dividir a direção, fazer pausas para não estressar o pet e dormir. Me preparei psicologicamente para este momento e avisei: “não gosto de dirigir a noite”. Mas, como todo bom plano, deu ruim. Reféns de GPS, caminhões na estrada e algumas paradas a mais, acabamos nos perdendo no final do primeiro dia. Eu estava na direção quando o Waze nos mandou por uma rota fora da BR, sem nenhuma iluminação, às 19h. Sem o farol, não enxergávamos absolutamente nada.
Para compensar, a lua cheia se fez presente e ela estava INCRÍVEL. Grande, iluminada, parecia cena de filme. Mas, eu não consegui apreciar muito a sua beleza porque na minha frente a escuridão começava a me assustar. Naquele momento comecei a me questionar: qual o limite de uma jovem mulher adulta? Quando eu vou verbalizar que estou com medo? Até quando vou conseguir passar uma imagem de forte e segura? Quanto tempo vou aguentar ouvir que o caminho está estranho, que a gente não deveria ter virado naquela estrada, sem surtar? Quanto de pressão eu iria aguentar? 60 minutos.
O GPS havia calculado 1h20 até o destino final e por uma hora segui rumo ao desconhecido, em uma estrada escura, enfrentando meu maior medo: o de não saber o que estava à minha frente. No meio do surto interno, eu fazia uma auto análise sobre a relação do escuro com a falta de controle do futuro, sobre como se jogar ao desconhecido assusta mesmo e como manter a paciência numa situação de estresse é estressante para caramba. Vinte minutos antes de chegar à pousada que havíamos reservado e após passar por uma cidade pequena de interior e ter pego informação com uma idosa super acolhedora, entramos numa estrada de barro, sem luz, sem lua e cheia de buraco. Meu limite havia chegado. Dei meia volta e falei: “a partir daqui não sigo mais”.
Quando a exaustão de lidar com a situação chegou, outra personalidade minha entrou em cena: aquela que não tem mais paciência para aceitar o que não lhe cabe. Voltar 1h de viagem naquela mesma estrada não era uma opção. Seguir em frente muito menos. Eu estava cansada, queria voltar pra cidadezinha que havíamos passado a pouco tempo, achar uma pousada, tomar um banho, comer, dormir e enfrentar o problema à luz do dia.
Foi o que fizemos.
Ainda existia o medo de não saber onde estávamos e de sermos roubados no meio do nada, mas tinha luz. Eu só dormi 2h naquela noite, porque meu corpo ainda estava em alerta e uma pergunta não deixava de martelar em minha mente: “qual o limite do jovem na hora de se provar adulto?”
60 minutos de angústia foi muito tempo naquela noite. Assim como dias, semanas, meses ou anos também são quando temos que aguentar algo que não nos faz bem. Tanto na vida pessoal quanto profissional, a necessidade de me provar sempre foi tão absurda que naquele dia senti um ponto de ruptura em mim. Diante disso, estabelecer os meus limites tem sido um desafio maior do que lidar com o escuro. Que ao invés de morrer de medo, eu aprenda a viver no amor-próprio. Que eu possa aproveitar mais a luz da lua nos caminhos que passo. E que eu possa respeitar meu tempo, emoções e aceitando até onde aguento ir, sem precisar provar nada para ninguém. Fácil eu sei que não vai ser, mas não custa tentar, não é mesmo? Afinal, já vivemos no escuro mesmo.
E por aí? Estão conseguindo impor seus limites?
Alguns links: Tire de você o peso de achar que precisa lidar com tudo só. O que há em excesso e o que está em falta na sua vida? Casa, lar, aqui. Salvador fez 473 anos hoje e esse texto da Miranda Estúdio representa todo o meu amor por essa cidade <3 Anitta nos envolvendo igual a copa do mundo. É para aplaudir de pé e aprender com essa mulher!
Texto publicado na newsletter pessoal em 29/03/22

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